sobre os rios

11 12 2008

 

reginagouveia_mirandela12122008

 Regina Gouveia nasceu em Outubro de 1945. Em 1952, em Parada (rio Sabor), concelho de Alfândega da Fé, iniciou a escola que concluiu em Bragança. Em 1967 conclui, na Universidade do Porto, a licenciatura em Físico-Quimica e em 1995, na Universidade de Aveiro, o Mestrado em Supervisão. É consultora do Centro Interactivo de Ciência Rómulo de Carvalho criado no âmbito do programa CiênciaViva e Voluntária na Biblioteca Almeida Garrett onde desenvolve com crianças, actividades sobre ciência e poesia.

Próxima Edição:

 

Requiem pela água

I

Docemente a chuva foi caindo

cobrindo a terra mãe ressequida, exangue.

Da cópula gerou-se nova vida e eis campos verdejantes,

searas ondulantes e amoras rubras de sumo cor de sangue.

II

Era o riso cristalino das crianças que se confundia com o correr

da água no regato, era a gota de orvalho sobre a rosa

qual pérola que a ostra protege, mãe ciosa,

era, nas gotas de chuva, a luz refractada

a desdobrar-se num arco-íris imenso

como que a segurar o céu cinzento e denso.

III

Era a sombra do velho salgueiro na margem,

a frescura nos pés chapinando na água, o limo escorregadio.

Era o rio, o velho rio que então me parecia imenso.

Era a infância, agora uma miragem.

O sussurro da água ainda se recorta no silêncio, mas já não é cristalino o velho rio.

IV

Ouço o seu murmurar dolente na velha ribeira,

onde já não faz mover a mó do velho moinho,

ouço o seu cantar agora triste, no rio outrora cristalino

Ouço-a vociferar nas ondas revoltas deste mar

e sinto os homens a lutar por possuí-la

qual mulher virgem que se anseia violar.

E ela lá vai prosseguindo o seu caminho

sentida com os homens que a não sabem amar

 

V

Agosto

O sumo da rubra melancia escorre-me pelas mãos e pelo rosto.

Lembro-me da velha fonte, água cristalina, sempre fria;

lembro-me do seu rumor, qual litania.

Para lá me dirijo e, em sua fronte, leio num cartaz esta heresia:

Água imprópria para consumo.

 

 

Navio azul

Terra, navio azul

no oceano cósmico infinito

onde ecoa o teu apelo aflito.

Insensatos, fingimos não escutar,

esquecendo que juntamente contigo

iremos naufragar.

 

O bailado das aves

Desenhando volutas no ar transparente

aves exibiam os seus passos de dança num gentil bailado

A música vinha do rumor das águas, do soprar do vento

Mas eis que o ruído e o fumo invadiram o ar

Já não se vêem as aves voltear

e sente-se ao longe um piar dolente.

Elegia

Como cantar-te terra?

Uma ode, um hino de alegria, um poema de amor?

Talvez seja melhor compor uma elegia

que possa ressoar em sintonia

com esse teu grito de tristeza e dor.

 

Mar

Amante da terra que, tão meigo, abraças,

sedutor da Lua que à noite enlaças

quando, sem recato, se vem espelhar,

amigo do vento que escutas atento

quando os seus segredos te vem confiar

e a quem tu confias dores e alegrias,

todo o teu pesar que ele vai espalhar

por vales e montes, por rios e fontes

desde o norte ao sul.

Pesar pelo homem insensível, louco,

a quem pedes pouco, só algum amor.

Serves-lhe de estrada para ir navegar

dás-lhe o sustento e o acalento

num bailado de ondas a ir e voltar,

num sussurro doce que espalhas no ar

envolto na névoa e na maresia.

Expões-te, qual tela plena de magia,

num jogo de luz, de sombra e de cor,

sem nada cobrar.

E o homem louco, a quem pedes pouco,

em seu desamor, ainda te maltrata.

Por vezes reages e lanças um brado

impulsivo, irado.

Passado o repente,

surges complacente, com teu manto azul

raiado de ouro, mesclado de prata.

 


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12 12 2008
COAGRET-Portugal

poema XX, de Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa)

O Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêm em tudo o que lá não está,
A memória das Naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior que o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

[Heterónimo de Fernando Pessoa nascido em 1889, dois anos depois de Ricardo Reis e em Lisboa, Alberto Caeiro passou, no entanto, quase toda a sua vida fora da cidade. De estatura média, um pouco mais baixo do que Ricardo Reis. era de frágil compleição. Usava cara rapada e o cabelo, sobre o abundante, era louro. Calmo e directo olhar azul, sorriso como declaração da plenitude de existir. Durou apenas 26 anos. Escrevia a jactos de inspiração e a sua obra magna, O Guardador de Rebanhos, foi escrita apenas um ano antes da sua morte. De Agostinho da Silva; Um Fernando Pessoa]

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