
Regina Gouveia nasceu em Outubro de 1945. Em 1952, em Parada (rio Sabor), concelho de Alfândega da Fé, iniciou a escola que concluiu em Bragança. Em 1967 conclui, na Universidade do Porto, a licenciatura em Físico-Quimica e em 1995, na Universidade de Aveiro, o Mestrado em Supervisão. É consultora do Centro Interactivo de Ciência Rómulo de Carvalho criado no âmbito do programa CiênciaViva e Voluntária na Biblioteca Almeida Garrett onde desenvolve com crianças, actividades sobre ciência e poesia.
Próxima Edição:
Requiem pela água
I
Docemente a chuva foi caindo
cobrindo a terra mãe ressequida, exangue.
Da cópula gerou-se nova vida e eis campos verdejantes,
searas ondulantes e amoras rubras de sumo cor de sangue.
II
Era o riso cristalino das crianças que se confundia com o correr
da água no regato, era a gota de orvalho sobre a rosa
qual pérola que a ostra protege, mãe ciosa,
era, nas gotas de chuva, a luz refractada
a desdobrar-se num arco-íris imenso
como que a segurar o céu cinzento e denso.
III
Era a sombra do velho salgueiro na margem,
a frescura nos pés chapinando na água, o limo escorregadio.
Era o rio, o velho rio que então me parecia imenso.
Era a infância, agora uma miragem.
O sussurro da água ainda se recorta no silêncio, mas já não é cristalino o velho rio.
IV
Ouço o seu murmurar dolente na velha ribeira,
onde já não faz mover a mó do velho moinho,
ouço o seu cantar agora triste, no rio outrora cristalino
Ouço-a vociferar nas ondas revoltas deste mar
e sinto os homens a lutar por possuí-la
qual mulher virgem que se anseia violar.
E ela lá vai prosseguindo o seu caminho
sentida com os homens que a não sabem amar
V
Agosto
O sumo da rubra melancia escorre-me pelas mãos e pelo rosto.
Lembro-me da velha fonte, água cristalina, sempre fria;
lembro-me do seu rumor, qual litania.
Para lá me dirijo e, em sua fronte, leio num cartaz esta heresia:
Água imprópria para consumo.
Navio azul
Terra, navio azul
no oceano cósmico infinito
onde ecoa o teu apelo aflito.
Insensatos, fingimos não escutar,
esquecendo que juntamente contigo
iremos naufragar.
O bailado das aves
Desenhando volutas no ar transparente
aves exibiam os seus passos de dança num gentil bailado
A música vinha do rumor das águas, do soprar do vento
Mas eis que o ruído e o fumo invadiram o ar
Já não se vêem as aves voltear
e sente-se ao longe um piar dolente.
Elegia
Como cantar-te terra?
Uma ode, um hino de alegria, um poema de amor?
Talvez seja melhor compor uma elegia
que possa ressoar em sintonia
com esse teu grito de tristeza e dor.
Mar
Amante da terra que, tão meigo, abraças,
sedutor da Lua que à noite enlaças
quando, sem recato, se vem espelhar,
amigo do vento que escutas atento
quando os seus segredos te vem confiar
e a quem tu confias dores e alegrias,
todo o teu pesar que ele vai espalhar
por vales e montes, por rios e fontes
desde o norte ao sul.
Pesar pelo homem insensível, louco,
a quem pedes pouco, só algum amor.
Serves-lhe de estrada para ir navegar
dás-lhe o sustento e o acalento
num bailado de ondas a ir e voltar,
num sussurro doce que espalhas no ar
envolto na névoa e na maresia.
Expões-te, qual tela plena de magia,
num jogo de luz, de sombra e de cor,
sem nada cobrar.
E o homem louco, a quem pedes pouco,
em seu desamor, ainda te maltrata.
Por vezes reages e lanças um brado
impulsivo, irado.
Passado o repente,
surges complacente, com teu manto azul
raiado de ouro, mesclado de prata.










poema XX, de Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa)
O Tejo é mais belo que o rio que corre na minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêm em tudo o que lá não está,
A memória das Naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior que o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
[Heterónimo de Fernando Pessoa nascido em 1889, dois anos depois de Ricardo Reis e em Lisboa, Alberto Caeiro passou, no entanto, quase toda a sua vida fora da cidade. De estatura média, um pouco mais baixo do que Ricardo Reis. era de frágil compleição. Usava cara rapada e o cabelo, sobre o abundante, era louro. Calmo e directo olhar azul, sorriso como declaração da plenitude de existir. Durou apenas 26 anos. Escrevia a jactos de inspiração e a sua obra magna, O Guardador de Rebanhos, foi escrita apenas um ano antes da sua morte. De Agostinho da Silva; Um Fernando Pessoa]